Notícias

Influenciadores defendem as bets, mas o problema está longe de ser simples

Influenciadores defendem as bets, mas o problema está longe de ser simples

Quando vi a movimentação de influenciadores em defesa das bets, confesso que a primeira coisa que me veio à cabeça não foi futebol, cassino ou Dinheiro.

Foi Instagram.

Porque boa parte da discussão sobre apostas no Brasil acontece justamente ali, entre um vídeo, uma foto de viagem, uma rotina de academia e um story que desaparece depois de 24 horas.

Segundo o Poder360, influenciadores como JoJo Todynho, Jon Vlogs e Davi Brito publicaram mensagens em defesa do mercado regulado de apostas, acompanhadas da hashtag **#NósApostamosNoBrasil**.

O movimento surgiu depois de uma medida provisória do governo federal que determinou o fim da exploração, oferta, intermediação e publicidade das bets no Brasil. A norma também estabeleceu o bloqueio de novos depósitos e determinou que sites e aplicativos deixassem de funcionar a partir de 6 de outubro.

O manifesto, assinado por entidades ligadas ao setor, sustenta que proibir as apostas poderia empurrar os jogadores para plataformas clandestinas.

É um argumento que merece ser entendido antes de qualquer reação automática.

Mas existe uma segunda parte dessa história que também não dá para ignorar.

## O problema é que bet não é tudo a mesma coisa

Essa talvez seja a parte mais confusa para quem acompanha o assunto de fora.

Existe uma diferença entre uma empresa autorizada a operar no mercado brasileiro e uma plataforma que simplesmente aparece na internet oferecendo apostas.

Na transcrição do podcast UOL Prime usada como base para este texto, a repórter Camila Brandalize explica justamente essa diferença ao falar sobre plataformas ilegais e o chamado jogo do tigrinho.

O problema, segundo ela, não está necessariamente no jogo em si, mas na plataforma onde ele é oferecido.

Uma empresa autorizada precisa obedecer às regras brasileiras. Uma operação clandestina pode estar registrada fora do país, não passar pelos mesmos controles e desaparecer tão rapidamente quanto surgiu.

É aí que a história começa a ficar bem mais complicada.

Porque, para o usuário comum, nem sempre existe uma placa dizendo: “olá, esta plataforma está funcionando dentro das regras brasileiras”.

E muita gente chega até esses sites por uma pessoa em quem já confia.

Um influenciador.

## O story de 24 horas pode valer muito dinheiro

Essa foi uma das partes da apuração apresentada no podcast que mais me chamou atenção.

Segundo a reportagem comentada por Camila Brandalize, uma estratégia utilizada por influenciadores para divulgar plataformas ilegais é colocar os links nos Stories do Instagram.

Faz sentido do ponto de vista de quem quer escapar do radar.

O story desaparece depois de 24 horas.

E dentro dele cabe praticamente tudo: uma foto do café da manhã, uma mensagem religiosa, uma criança, uma viagem, uma roupa nova e, alguns segundos depois, um link para uma casa de apostas.

É justamente essa mistura que torna a publicidade difícil de perceber.

Não parece necessariamente uma propaganda tradicional.

Parece uma recomendação pessoal.

A pessoa aparece dizendo que ganhou dinheiro, mostra uma suposta aposta e coloca o link logo abaixo.

Para quem acompanha aquele influenciador todos os dias, a barreira entre publicidade e rotina fica muito pequena.

## A investigação encontrou dezenas de perfis

Na transcrição, Camila relata que começou a acompanhar perfis que faziam esse tipo de divulgação e acabou identificando **86 influenciadores** promovendo plataformas de apostas ilegais.

Ela conta que registrou os Stories e organizou as informações em uma planilha.

O detalhe interessante é que muitos desses perfis não eram necessariamente os maiores nomes da internet.

E isso ajuda a entender uma coisa que às vezes passa despercebida.

Para uma campanha desse tipo, talvez não seja necessário contratar apenas uma celebridade com milhões de seguidores.

Um influenciador menor pode ter uma audiência muito mais próxima.

É aquela diferença entre falar para milhões de pessoas e falar para algumas centenas de milhares que realmente acompanham cada publicação.

## O dinheiro está justamente no clique

Outro ponto relatado na apuração é o modelo de remuneração.

Em um dos casos apresentados no podcast, uma investigação policial teria identificado um acordo em que o influenciador receberia uma porcentagem do dinheiro movimentado pelos usuários que chegassem à plataforma por meio de seu link.

Em outro caso citado, uma influenciadora investigada teria recebido milhões de reais ao longo de contratos com empresas do setor.

Há ainda o relato de uma conversa em que uma influenciadora teria afirmado ter levado R$ 45 milhões para uma empresa em apenas 35 dias.

É importante fazer uma distinção aqui.

Esses números aparecem na apuração jornalística e em investigações mencionadas na entrevista. Eles não significam que todos os influenciadores envolvidos com publicidade de apostas estejam cometendo crimes ou recebendo valores semelhantes.

Mas ajudam a explicar por que esse mercado consegue atrair tanta gente.

Não estamos falando apenas de colocar uma logomarca em uma camiseta.

Existe um incentivo financeiro diretamente ligado à capacidade de levar pessoas para determinada plataforma.

## E é aqui que o manifesto ganha outro significado

Quando os influenciadores dizem que defendem o mercado regulado, o argumento apresentado no manifesto é relativamente simples: se as bets forem proibidas, parte dos apostadores pode migrar para plataformas clandestinas.

O texto divulgado pelo setor também defende fiscalização e regras mais rígidas em vez da proibição.

Esse ponto é importante porque existe uma diferença enorme entre defender a existência de um mercado regulado e defender qualquer plataforma de aposta que apareça na internet.

São coisas diferentes.

O próprio debate sobre regulamentação nasceu, em parte, justamente da tentativa de estabelecer regras para empresas que querem atuar no país.

O Poder360 informa que as apostas de quota fixa foram regulamentadas no Brasil em 2023 e que cada autorização custa R$ 30 milhões, com validade de cinco anos. Desde a regulamentação, a União teria arrecadado cerca de R$ 2,5 bilhões em taxas de outorga.

Ou seja, existe um mercado formal, com regras, autorização e arrecadação.

A questão é saber o que acontece quando alguém simplesmente pula todas essas etapas.

## O mercado ilegal é a outra ponta da história

A transcrição do UOL Prime apresenta números preocupantes sobre esse lado menos visível.

Segundo dados citados na conversa, um estudo do Instituto Locomotiva apontou que três em cada quatro pessoas que apostam já fizeram ou fazem apostas em plataformas ilegais.

A mesma apuração menciona uma estimativa de que entre 41% e 51% do mercado de bets estaria nas mãos de empresas ilegais.

São números que precisam ser tratados como estimativas, e não como uma fotografia oficial definitiva do mercado.

A própria entrevista faz essa ressalva ao explicar que não havia, naquele momento, um número oficial consolidado do governo sobre quanto seria efetivamente perdido em arrecadação.

Esse cuidado é importante.

No debate sobre bets, números gigantes aparecem com muita facilidade.

E nem sempre estamos falando da mesma coisa.

Uma estimativa de movimentação financeira não é automaticamente o mesmo que arrecadação perdida. Uma projeção de mercado também não é um dado oficial.

## Tem outro detalhe que pouca gente percebe

Na entrevista, uma pesquisa citada aponta que 78% dos entrevistados teriam dificuldade para identificar quando uma plataforma é legal ou ilegal.

A repórter chama atenção para um detalhe simples: o endereço eletrônico das casas autorizadas segue o domínio **bet.br**.

É uma informação aparentemente pequena, mas que pode fazer diferença para quem recebe um link pelo celular.

O problema é que informação simples nem sempre chega ao usuário com a mesma força que chega a propaganda.

O influenciador aparece mostrando dinheiro.

Mostra carro.

Mostra viagem.

Mostra uma suposta vitória.

A explicação sobre regulamentação, fiscalização e risco costuma ocupar muito menos espaço.

E talvez esteja aí uma das maiores dificuldades desse mercado.

## O caso das bets mostra como a publicidade mudou

Eu acho que essa é a parte mais interessante de toda essa discussão.

Durante muito tempo, publicidade era algo fácil de reconhecer.

Você via um comercial e sabia que era comercial.

Hoje, um influenciador pode mostrar o almoço, conversar com os seguidores, mostrar a família, comentar uma viagem e, no meio disso, inserir uma oferta.

Tudo parece parte da mesma conversa.

Isso muda completamente a relação de confiança.

Quando uma pessoa acompanha determinado influenciador durante anos, ela não está necessariamente enxergando aquela postagem como um anúncio feito por uma empresa.

Ela pode enxergar como uma dica.

E uma dica de alguém que acabou de mostrar que ganhou dinheiro parece muito diferente de um comercial tradicional.

## A proibição resolve o problema?

Essa é provavelmente a pergunta que vai continuar rondando essa discussão.

Os defensores do mercado regulado dizem que retirar as empresas autorizadas pode favorecer justamente quem opera fora das regras.

Por outro lado, a investigação apresentada pelo UOL Prime mostra que o mercado clandestino já encontrou uma maneira bastante eficiente de chegar ao público: os próprios influenciadores.

Então existe uma contradição interessante.

De um lado, há quem diga que regular é uma forma de controlar.

De outro, existe um mercado ilegal que se aproveita das mesmas redes sociais e da mesma lógica de influência.

O debate, portanto, não termina simplesmente em “ser contra ou a favor das bets”.

Tem pelo menos três discussões diferentes misturadas aqui: a existência do mercado, a fiscalização das empresas e a forma como as apostas chegam ao consumidor.

E talvez seja justamente essa mistura que deixe tudo tão difícil de entender.

## O alerta que eu levaria dessa história

Se tem uma coisa que eu não faria é confiar em um link de aposta só porque alguém famoso publicou.

Número de seguidores não é certificado de segurança.

Carro de luxo não é certificado de segurança.

Print de saldo também não.

E muito menos uma pessoa dizendo que acabou de ganhar dinheiro.

A própria transcrição mostra relatos de plataformas que teriam bloqueado contas ou desaparecido quando usuários tentavam retirar valores. Também são mencionadas reclamações relacionadas a sites que não possuem sede no Brasil.

Isso muda completamente a relação de risco.

Quando uma empresa autorizada tem regras e fiscalização, existe um caminho institucional para cobrar explicações.

Quando você coloca dinheiro em uma plataforma clandestina, esse caminho pode simplesmente não existir da mesma maneira.

## O que ficou para mim dessa história

O manifesto dos influenciadores não é apenas uma discussão sobre apostas.

É também uma discussão sobre quem controla a atenção de milhões de brasileiros.

As bets perceberam há algum tempo que um anúncio tradicional não é necessariamente a maneira mais eficiente de conquistar um apostador.

O influenciador pode fazer isso de forma muito mais pessoal.

E agora, justamente quando o mercado passa por uma disputa sobre seu futuro, são esses mesmos influenciadores que voltam às redes para defender a permanência das bets regulamentadas.

No fim, fica uma pergunta que eu acho mais interessante do que simplesmente ser contra ou a favor das apostas: **se o problema é controlar o mercado, quem vai controlar a propaganda, os links e a forma como esse mercado chega até o celular de quem está do outro lado da tela?**

Porque, olhando para o que já aconteceu com as plataformas ilegais, parece que a parte mais difícil nunca foi criar uma aposta.

Foi impedir que ela chegasse até você.

Continue lendo

Assuntos próximos deste texto, por tema e categoria.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *