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Einstein disse ao filho que piano e carpintaria podiam ensinar mais que a escola. E a ideia é mais atual do que parece

Einstein disse ao filho que piano e carpintaria podiam ensinar mais que a escola. E a ideia é mais atual do que parece

A carta de Einstein ao filho que faz pensar sobre escola, hobbies e o prazer de aprender

Quando penso em como uma criança aprende, uma coisa sempre me chama atenção: nem tudo aquilo que parece “brincadeira” para um adulto é perda de tempo para uma criança.

Às vezes, é justamente ali que ela está aprendendo mais.Uma carta escrita por Albert Einstein ao filho Hans Albert, em 1915, traz uma ideia curiosa sobre isso. Na época, o menino tinha 11 anos e estava aprendendo piano. Einstein ficou contente ao saber que o filho gostava da atividade e foi além de simplesmente incentivá-lo a continuar.

Ele também mencionou a carpintaria e colocou essas atividades em uma posição surpreendentemente importante para aquela idade, chegando a dizer que eram melhores até do que o trabalho escolar.

É uma frase que, lida rapidamente, pode parecer uma crítica à escola. Mas, para mim, o mais interessante está em outra parte da carta: Einstein estava falando sobre o prazer de aprender.

Einstein não estava simplesmente dizendo para o filho abandonar a escola

Esse detalhe merece atenção porque é fácil transformar uma frase antiga em uma espécie de conselho moderno que ela nunca pretendeu ser.

Einstein não estava dizendo que estudar não servia para nada. A própria carta mostra que ele se interessava pelo aprendizado do filho e conversava com ele sobre assuntos como geometria e Ciência.

O que parece incomodá-lo é outra coisa: a ideia de que aprender precisa acontecer somente dentro de uma estrutura formal.

Na visão apresentada na carta, tocar um instrumento ou trabalhar com madeira também poderia desenvolver algo importante em uma criança. Não porque essas atividades fossem “mais inteligentes” do que matemática, leitura ou outras disciplinas, mas porque despertavam interesse.

E existe uma diferença enorme entre fazer alguma coisa porque mandaram e continuar fazendo porque você realmente quer descobrir até onde consegue chegar.

A parte da carta que mais me chama atenção

O conselho de Einstein ao filho tinha um componente bastante simples: ele queria que o menino tocasse no piano músicas de que gostasse, mesmo quando não fossem aquelas escolhidas pelo professor.

Isso diz bastante.

Imagine uma criança sentada diante de um piano, repetindo pela décima vez uma música que não desperta nenhuma vontade nela. Agora imagine a mesma criança descobrindo uma música de que realmente gosta e tentando tocá-la sozinha.

Provavelmente haverá erros. Muitos.

Ela pode apertar a tecla errada, voltar algumas vezes, tentar de novo e até ficar irritada. Mas existe uma diferença: ela tem um motivo para continuar.

Esse talvez seja o detalhe mais interessante da mensagem de Einstein. O aprendizado não aparece apenas como uma obrigação a ser cumprida, mas como consequência da curiosidade.

Quando a criança gosta, ela nem percebe quanto está praticando

Eu vejo isso como uma das coisas mais curiosas no aprendizado.

Quando alguém está realmente interessado em alguma coisa, a prática muda de aparência.

Uma criança que gosta de desenhar pode passar uma tarde inteira tentando fazer o mesmo personagem até conseguir. Quem gosta de montar coisas desmonta um brinquedo para descobrir como funciona. Quem gosta de música repete o mesmo trecho várias vezes sem precisar que alguém fique lembrando que é hora de estudar.

De fora, parece passatempo.

Por dentro, existe tentativa, erro, memória, coordenação, concentração e resolução de problemas.

É justamente essa diferença que torna a ideia da carta tão interessante mais de um século depois.

E por que Einstein citou a carpintaria?

Essa parte pode passar despercebida, mas é talvez uma das melhores pistas para entender o que ele queria dizer.

A carpintaria envolve fazer alguma coisa concreta. Você mede, corta, encaixa, erra, ajusta e tenta novamente. Existe uma resposta bastante objetiva para o problema: a peça encaixou ou não encaixou.

Não é preciso imaginar uma criança construindo uma grande obra.

Pode ser uma pequena caixa, um brinquedo simples ou qualquer objeto feito com as próprias mãos.

O valor está no processo.

Você começa com uma ideia na cabeça e precisa descobrir como transformá-la em alguma coisa que exista de verdade. Isso exige uma combinação curiosa de criatividade e paciência.

Talvez o problema esteja em transformar tudo em desempenho

É aqui que a mensagem de Einstein fica mais incômoda para mim.

Existe uma tendência de transformar quase tudo o que uma criança faz em alguma espécie de resultado.

Se ela toca piano, queremos saber se vai ficar boa. Se desenha, perguntamos se vai fazer um curso. Se gosta de montar coisas, pensamos logo em profissão. Se lê muito, aparecem metas de quantidade de livros.

Até o hobby pode virar uma pequena cobrança.

“Quantas músicas você já aprendeu?”

“Quando vai tocar para alguém?”

“Você está melhorando?”

É claro que incentivo e acompanhamento são importantes. O problema começa quando a criança deixa de fazer algo pelo prazer da atividade e passa a fazer apenas para entregar um resultado.

E aí acontece uma ironia: aquilo que começou como diversão pode acabar parecendo mais uma matéria da escola.

O aprendizado mais importante pode não aparecer na nota

Uma criança que aprende carpintaria talvez não tire nenhuma nota por isso.

Quem passa horas desenhando provavelmente não recebe um boletim no fim do mês.

Uma criança que aprende uma música sozinha não necessariamente terá um certificado para provar que passou aquele tempo praticando.

Mas isso não significa que nada aconteceu.

Ela pode ter aprendido a insistir diante de um erro. Pode ter descoberto que uma coisa difícil fica menos assustadora depois de algumas tentativas. Pode ter aprendido a prestar atenção nos detalhes.

São aprendizados difíceis de colocar em uma tabela.

E talvez seja justamente por isso que sejam tão fáceis de ignorar.

Existe, porém, um cuidado importante nessa história

Eu não usaria a carta de Einstein como argumento para dizer que hobbies são “melhores” do que a escola.

Essa conclusão seria simplista.

Escola e atividades por interesse cumprem funções diferentes. Uma criança precisa ter contato com conhecimentos que talvez não escolheria espontaneamente, e a educação formal tem um papel importante nisso.

O alerta é outro: não deveríamos esperar que toda aprendizagem importante aconteça porque alguém mandou.

Curiosidade também precisa de espaço.

Inclusive para que a criança descubra coisas que os adultos ao redor dela jamais teriam escolhido por ela.

Uma frase escrita há mais de 100 anos ainda provoca uma pergunta

O que mais gosto nessa história é que ela não precisa transformar Einstein em um guru da educação.

Ele era um pai escrevendo para o filho em um momento em que os dois estavam separados. A carta também fala de afeto, de saudade e da tentativa de manter uma relação próxima. O conselho sobre piano e carpintaria aparece dentro desse contexto pessoal.

Isso deixa tudo mais humano.

No fim, talvez a grande lição não seja escolher entre escola e piano, ou entre estudar matemática e trabalhar com madeira.

Talvez seja observar melhor aquilo que faz uma criança perder a noção do tempo.

Porque, às vezes, enquanto nós estamos preocupados em perguntar o que ela vai aprender com determinada atividade, ela já encontrou uma pergunta muito mais importante por conta própria: “E se eu tentar mais uma vez?”

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