Eu sempre achei curioso como a gente costuma tratar o frio como um incômodo e o calor extremo como um perigo mais evidente. Depois de entender melhor o que acontece com o corpo em temperaturas muito baixas, essa percepção mudou bastante para mim.
A hipotermia não é simplesmente estar com muito frio. Ela começa quando a temperatura corporal cai para menos de 35 °C e o organismo passa a perder calor mais rapidamente do que consegue produzir.
E tem um detalhe que me chamou especialmente a atenção: uma piscina gelada pode ser bem mais perigosa do que parece.
Por que a água fria merece tanta atenção?
Já aconteceu de você entrar em uma piscina e achar a água absurdamente fria, mesmo em um dia que nem estava tão gelado?
Isso faz sentido quando pensamos na transferência de calor. A água consegue retirar calor do nosso corpo de maneira muito mais eficiente do que o ar.
É também uma forma interessante de entender algo aparentemente contraditório. Água a 36 °C pode não parecer particularmente quente, enquanto um ambiente com o ar a 36 °C pode ser sufocante.
O número no termômetro pode ser o mesmo, mas a maneira como nosso corpo troca calor com cada ambiente é completamente diferente.
Foi justamente aí que percebi que olhar apenas para a temperatura pode enganar bastante.
O que é hipotermia?
De forma simples, hipotermia é a queda da temperatura corporal abaixo de 35 °C.
Nosso organismo trabalha para manter a temperatura em uma faixa relativamente estreita. Quando começamos a perder calor, ele não fica simplesmente esperando a situação melhorar.
Ele reage.
Os tremores são provavelmente a reação mais conhecida. Os músculos começam a se contrair repetidamente porque atividade muscular também produz calor.
É por isso que alguém pode passar um tempo tremendo de frio e depois perceber os ombros doloridos ou até a mandíbula cansada de tanto apertar os dentes.
O corpo também tenta proteger os órgãos mais importantes
Outra reação é a vasoconstrição.
Os vasos sanguíneos próximos da pele se contraem para diminuir a perda de calor. Na prática, o organismo passa a priorizar a circulação nos órgãos vitais e reduz o fluxo de sangue nas extremidades.
Isso ajuda a explicar por que mãos e pés costumam ficar tão frios.
Os pelos também podem se arrepiar na tentativa de preservar uma pequena camada de ar próxima da pele. Parece pouca coisa, mas é parte do esforço do organismo para segurar calor.
Quando o frio deixa de ser apenas desconfortável
Esse é provavelmente o ponto mais importante.
No começo, tremores, mãos frias, dormência e cansaço podem aparecer. Conforme a temperatura corporal continua caindo, porém, os sinais ficam mais preocupantes.
Por volta de temperaturas corporais mais baixas, podem surgir tremores muito intensos, dificuldade para falar e perda de coordenação dos movimentos.
Em quadros graves, a pessoa pode apresentar alteração importante da consciência, comprometimento da respiração e do funcionamento cardíaco, podendo evoluir para coma, parada cardíaca e morte.
Ou seja, existe uma diferença enorme entre dizer “estou congelando” depois de sair do banho e realmente entrar em hipotermia.
Banheira de gelo e mergulho em água gelada não são brincadeira
Confesso que esse é o trecho que mais me fez pensar nas tendências que aparecem nas redes sociais.
Entrar em uma banheira cheia de gelo ou mergulhar em água extremamente fria virou quase um símbolo de disciplina para algumas pessoas. Só que o organismo não sabe que aquilo está sendo feito para render um vídeo bonito ou cumprir um desafio.
Ele percebe uma exposição brusca ao frio e reage.
A contração dos vasos sanguíneos e as alterações cardiovasculares provocadas pelo frio podem representar um risco maior principalmente para pessoas que já têm problemas cardíacos ou pressão alta.
O fato de uma prática estar popular na internet não transforma automaticamente aquilo em algo seguro.
E malhar de moletom para suar mais, emagrece?
Aqui aparece o extremo oposto.
Também é comum ver gente treinando com várias camadas de roupa porque acredita que quanto mais suar, maior será a perda de gordura.
O suor, porém, não é gordura derretendo.
Usar roupas muito quentes durante exercícios pode dificultar justamente o mecanismo que o corpo utiliza para eliminar calor. Em determinadas condições, isso favorece desidratação e aumento excessivo da temperatura corporal.
É a hipertermia entrando na conversa.
Febre e hipertermia não são exatamente a mesma coisa
Essa diferença costuma passar despercebida.
Na febre, o organismo reajusta seu “termostato interno”, localizado no hipotálamo, para trabalhar em uma temperatura mais elevada, geralmente como parte de uma resposta a uma infecção.
Na hipertermia, o problema é outro. O corpo acumula calor porque seus mecanismos de regulação térmica não estão conseguindo dar conta da situação.
Isso pode acontecer, por exemplo, durante exposição prolongada ao calor ou exercício intenso em condições inadequadas de ventilação e hidratação.
Em situações graves podem surgir confusão mental, vômitos, tontura, desmaios, convulsões, desidratação e outras complicações importantes.
Agora a sensação térmica faz muito mais sentido
Outra coisa que eu passei a enxergar de outro jeito foi aquela frase da previsão do tempo: “temperatura de 10 °C, sensação térmica de 5 °C”.
Durante muito tempo isso pareceu apenas uma maneira complicada de dizer que estava frio.
Não é bem assim.
A sensação de frio ou calor não depende somente da temperatura registrada pelo termômetro. Também importa a maneira como nosso corpo está trocando calor com o ambiente.
Vento, umidade e exposição ao sol podem alterar bastante essa troca.
Um vento forte, por exemplo, favorece a perda da camada de ar aquecido próxima à pele. É por isso que dois dias com exatamente a mesma temperatura podem provocar sensações completamente diferentes.
O insight que ficou para mim é simples: nosso corpo não sente o número mostrado pelo aplicativo do tempo. Ele sente a velocidade com que está ganhando ou perdendo calor.
O que fazer diante de uma possível hipotermia?
A prioridade é interromper a perda de calor.
A pessoa deve ser retirada do ambiente frio e roupas molhadas precisam ser removidas. O reaquecimento deve ser feito de maneira adequada e, diante de sinais de hipotermia, especialmente confusão, sonolência intensa, dificuldade para falar ou alterações de consciência, é importante buscar atendimento médico com urgência.
Um detalhe que achei particularmente interessante é que o cobertor não “produz” calor.
Ele funciona principalmente como isolante, ajudando a conservar o calor que o corpo já possui. Em uma pessoa com hipotermia importante, portanto, simplesmente colocar uma manta e esperar pode não resolver a situação.
Alerta importante: hipotermia grave é uma emergência médica. Não vale improvisar tratamentos agressivos ou confiar apenas em Dicas vistas nas redes sociais.
Vídeo: primeiros socorros em casos de hipotermia e hipertermia
Para complementar o assunto, encontrei este vídeo no YouTube dedicado aos cuidados iniciais em situações de hipotermia e hipertermia:
Vídeo: Primeiros Socorros para Choque Térmico (Hipotermia e Hipertermia): Cuidados Iniciais.
Existe hipotermia usada como tratamento?
Essa foi uma das partes que mais me surpreenderam.
Reduzir propositalmente a temperatura corporal já foi estudado em contextos médicos específicos. Isso não significa, porém, que provocar hipotermia seja uma espécie de terapia geral ou uma prática saudável para fazer por conta própria.
Na transcrição que serviu de base para este artigo, é citado um contexto bastante específico: recém-nascidos com encefalopatia hipóxico-isquêmica, situação relacionada à falta de oxigênio ao cérebro no período do nascimento.
Nesses casos, o controle da temperatura pode fazer parte de uma abordagem médica cuidadosamente monitorada.
Repare na diferença: estamos falando de ambiente hospitalar, indicação específica, protocolos e acompanhamento profissional. Isso está muito distante de entrar voluntariamente em uma banheira de gelo porque alguém na internet disse que “faz bem para tudo”.
O frio não precisa parecer extremo para virar problema
Talvez essa seja a parte mais traiçoeira da hipotermia.
Quando imaginamos alguém sofrendo com frio perigoso, pensamos logo em neve, montanhas ou temperaturas negativas. Só que água fria, roupas molhadas, vento forte e exposição prolongada também podem acelerar a perda de calor.
E existe um ponto em que o próprio organismo começa a perder a capacidade de compensar essa situação.
Depois de entender isso, aquela história de uma piscina fechada no inverno por causa de um caso de hipotermia já não parece exagerada.
A pergunta que eu faria antes de entrar naquela piscina gelada, aceitar o desafio da banheira de gelo ou simplesmente ignorar um frio intenso seria outra: será que eu estou sentindo apenas desconforto ou meu corpo já está gastando tudo o que pode para continuar aquecido?
